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EMBALAGEM & SUSTENTABILIDADE

A pegada ambiental da humanidade já excede a capacidade regenerativa do planeta Terra em aproximadamente 30%[1]. O risco de mudança climática irreversível - decorrente do efeito estufa - aumenta conforme a concentração de CO2 gerado pelo homem na atmosfera supera 350 partes por milhão[2]. Nós já atingimos 387[2]. A busca por alternativas mais sustentáveis é urgente. Diz respeito à sobrevivência.

O consumidor já está sensibilizado para o tema, disposto a premiar iniciativas sustentáveis. E não é de se espantar que essa disposição venha mobilizando o departamento de pesquisa e desenvolvimento de empresas nos mais diversos setores da economia. Nessa corrida por competitividade-sustentável todos deveriam sair ganhando. O consumo redirecionado para alternativas “mais amigáveis” alivia os impactos ambientais ao mesmo tempo em que as empresas fornecedoras são premiadas, retro-alimentando um ciclo virtuoso.
Sobre as empresas que decidem entrar na “corrida sustentável” recai o enorme peso da responsabilidade, pois sua reputação é colocada em jogo sempre que um de seus produtos carrega o rótulo “verde”, “sustentável”, “amigo do meio ambiente” ou suas variações.
Esse texto, por meio da análise de mitos, discute o papel da embalagem no futuro do planeta oferecendo ao leitor elementos para diferenciar abordagens que apenas “parecem sustentáveis” das verdadeiramente mais sustentáveis.

Mito #1: Embalagem é ruim para o planeta, devendo ser reduzida ou eliminada.
A produção, utilização e descarte das embalagens implica em impactos ambientais. Sua visibilidade ao final do processo de consumo a torna sinônimo de lixo. A pergunta é: o futuro sustentável requer mais ou menos embalagens?
Um estudo realizado no Reino Unido revelou que a indústria de embalagem para alimentos representa aproximadamente 1% da emissão de gases de efeito estufa na região[3]. Esse mesmo estudo atribui à cadeia de alimentos como um todo 18,4% das emissões. Ou seja, o impacto “invisível” para o consumidor relativo ao cultivo, colheita, processamento, transporte, armazenamento, consumo e descarte de alimentos traz impacto ambiental muito superior ao da embalagem.
Some-se a isso, ainda no Reino Unido, o fato que 1/3 dos alimentos adquiridos pelo consumidor terminan na lata do lixo[4], sendo 61% desse desperdício classificado como evitável. Fazendo as contas (18,4% ÷ 3 x 61%), quase 4% das emissões de gases de efeito estufa no Reino Unido poderiam ser evitados não reduzindo embalagens, mas eliminando-se o desperdício de alimentos evitável.
Melhores embalagens podem ajudar em todas as categorias listadas como “desperdício evitável de alimentos”[4]: (I) Sobras no prato após refeição, (II) data de validade vencida, (III) aparência, cheiro ou gosto ruim, (IV) mofado e (V) sobras após preparo.
Reduzir ao máximo o impacto da embalagem no meio ambiente não significa mais sustentabilidade. Uma análise completa deve ter por objetivo minimizar os impactos da cadeia produtiva como um todo.
Enquanto a sociedade coloca todas as forças em reduzir o 1% de impacto relativo à produção de embalagens, os 4% relativos ao desperdício de alimentos passam completamente despercebidos. Vale ressaltar que 4% é uma estimativa conservadora, uma vez que não estão considerados os impactos relativos à destinação final dos resíduos biodegradáveis.
O elevado desperdício de alimentos não é exclusivo do Reino Unido. Estima-se que nos países em desenvolvimento até 50% dos alimentos não chegam ao estágio de consumo[5]. Números dos Estados Unidos da América apontam 27%[6]. Para o Brasil estima-se 39%[7].
Em resumo, embalagem não é desperdício, muito pelo contrátio, a embalagem é uma importante ferramenta para o desenvolvimento sustentável. A embalagem deve ser encarada como uma “garantia” de que a energia investida na agricultura, processamento, transporte e armazenagem de produtos alimentícios chegue até a etapa de consumo[8]. “Embalagem é a resposta para a fome mundial”[5].
O consumidor precisar entender desperdício de alimentos como “falta de sustentabilidade” e receber orientações para reduzí-lo.

Mito #2: A embalagem ideal deve ser biodegradável.
A sociedade pede embalagens biodegradáveis, entendendo que elas não geram impacto ambiental. Tudo gera algum tipo de impacto ambiental. A percepção popular de que o lixo orgânico desaparece, sem deixar vestígios, como num toque de mágica, não é verdade.
O processo de biodegradação, quando na presença de oxigênio, resulta na geração de dióxido de carbono (CO2), um reconhecido gás de efeito estufa, além de água e humus, que dependendo da pureza pode ser utilizado como fertilizante natural. Quando a biodegradação ocorre na ausência de oxigênio, situação muito comum nos aterros sanitários, gera-se também o metano (CH4), gás 23 vezes mais nocivo para o efeito estufa que o CO2.
Além da contribuição para o efeito estufa, grande parte dos impactos em um aterro estão relacionados à biodegradação sem controle (chorume, vetores de doenças e liberação de odores) e não aos materiais inertes como o plástico ou vidro. Uma embalagem biodegradável, de forma a minimizar seus impactos, deve ter como fim de vida a compostagem.
Tendo entendido que biodegradação não é a solução universal para sustentabilidade o seguinte passo é reconhecer que não existe um único material mais sustentável que todos os outros, seja ele biodegradável ou reciclável, de fonte fóssil ou renovável, plástico, metal, vidro, papel... cada qual tem seu espaço.
A embalagem sustentável deve atender a pelo menos três dimensões. A primeira e principal já foi apresentada no mito de número um: garantir a proteção ao produto. Na segunda dimensão, dentre as embalagens que protegem o produto, deve-se escolher aquela que implica menos impactos ambientais medidos segundo a Análise do Ciclo de Vida (ACV). Já a terceira tem a ver com como os materiais de embalagem se comportam no fim de vida, seja ele compostagem, aterro sanitário, reciclagem química, reciclagem mecânica ou reciclagem energética.
“Do ponto de vista ambiental, decisões a favor de qualquer material ou produto deve estar embasada em critérios científicos e na Análise do Ciclo de Vida. Nem os materiais tradicionais nem os de fonte renovável, biodegradáveis ou compostáveis devem ser descriminados.”[9]

Mito #3: Cem por cento das embalagens devem ser recicladas mecanicamente.
A reciclagem mecânica é sem dúvida uma meta a ser perseguida, mas tem limite. Existem casos nos quais o investimento ambiental para reciclar mecanicamente uma embalagem supera os impactos relativos à fabricação de uma nova embalagem. Os hábitos de consumo em cada comunidade são determinantes para definir o ponto ideal de reciclagem mecânica. Nos países desenvolvidos da Europa, por exemplo, considerados por muitos como referência em sustentabilidade, reciclam-se mecanicamente entre 20% e 30% dos plásticos pós-consumo, tendo como meta 22,5%.
Da mesma forma que não existe um material de embalagem melhor que todos os outros não existe uma forma de manejo de resíduos melhor que todas as outras. A resposta está na combinação por meio da Gestão Integrada de Resíduos. Uma estratégia completa para a gestão de resíduos sólidos urbanos deve contemplar estações de compostagem (para os orgânicos), reciclagem em suas diversas modalidades (química, mecânica e energética) e aterros sanitários.
Dentre as maiores oportunidades de melhoria na gestão de resíduos por parte dos países Latino-Americanos destaca-se a reciclagem energética, um processo que recupera a energia contida no plástico e outros materias de alto poder calorífico utilizando-a para reduzir o volume do lixo e os efeitos nocivos da biodegradação.
A Europa já tem 420 usinas “Waste to Energy” e os Estados Unidos 98. O Japão recicla energeticamente 40 milhões de toneladas de lixo por ano reduzindo-o para menos de 4 milhões de toneladas/ano em cinzas. Além de reduzir o volume do lixo em até 90%, essa modalidade de reciclagem gera energia renovável, reduz a emissão dos gases de efeito estufa e gera empregos técnicos. Os países mais respeitados por suas práticas de reciclagem, compostagem e reuso, como alguns da Europa ocidental, são os que mais fazem uso de usinas “Waste to Energy” para lidar com o que não vale a pena ser aproveitado de outras maneiras. Após anos de educação, conscientização e leis regulamentando a separação e reciclagem do lixo, eles chegaram a impressionantes 70-80% de reciclagem energética do lixo plástico.

Concluindo
A “moda” da sustentabilidade pode colocar consumidores e empresas em um ciclo virtuoso pela garantia do futuro do planeta. Embalagens com seu potencial de redução de desperdícios apresentam-se como uma importante ferramenta para as empresas que enxergam na sustentabilidade uma possivel vantagem competitiva.
Discussão ainda recente, existem muitos conceitos em sustentabilidade que todavia carecem de rigor científico. Isso implica em possíveis em riscos de reputação para quem toma posições sem o devido embasamento. No que diz respeito à embalagem esses riscos podem ser mitigados afastando-se dos mitos e buscando a verdade científica por meio da Análise do Ciclo de Vida.

Bruno Rufato Pereira
Professor do Núcleo de Estudos da Embalagem ESPM
Gerente de Sustentabilide e Embalagens Alimentícias para Plásticos Básicos na DOW

[1] Living Planet Report. WWF. 2008.
[2] A safe operating space for humanity. Revista Nature. Vol 461. 24 September 2009.
[3] Cooking up a storm: Food, greenhouse gas emissions and our changing climate. Tara Garnett. Food Climate Research Network. Centre for Environmental Strategy. University of Surrey. September 2008.
[4] Food Waste Report: The food we waste. Wrap. April 2008.
[5] Packaging is the answer to world hunger. Bo Wallteg, President, International Packaging Press Organization, www.ippopress.com. Carl Olsmats, General Secretary, World Packaging Organization, www.worldpackaging.org.
[6] Estimating and Addressing America’s Food Losses. Food Loss. 1997.
[7] O Papel dos Bancos de Alimento na Redução do Desperdício de Alimentos. Embrapa. 2007.
[8] Table for One – The energy cost to feed one person. Incpen. July 2009.
[9] PLASTICS INDUSTRY’S VIEW ON: PLASTIC PRODUCTS MADE OF BIOPLASTICS”. Plastics Europe. 2009.

 



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